O que precisa de mim amanhã?
Sobre propósito, distração e o que acontece quando já não sabemos exatamente para que estamos ocupando o nosso tempo.
503 / Ensaio

Há algumas semanas, eu estava conversando com dois amigos mais velhos sobre propósito. Em algum momento surgiu aquela frase que aparece facilmente em conversas entre gerações: “antigamente não era assim”.
A conversa acabou indo para trabalho, família, redes sociais e para a sensação de que muita gente hoje simplesmente vai vivendo sem saber muito bem para quê. Não necessariamente sem emprego ou sem objetivos, mas sem alguma coisa que dê direção à vida.
Comecei a pesquisar sobre propósito e sentido, e foi assim que encontrei Viktor Frankl, um nome que eu nem conhecia até então. Frankl foi psiquiatra e desenvolveu a logoterapia, uma abordagem em que a busca por sentido ocupa um lugar central. Para ele, o ser humano não poderia ser explicado apenas pela busca de prazer ou de poder. Haveria também uma vontade de encontrar significado na própria existência.
Fonte: Viktor Frankl Institute Vienna, Logotherapy and Existential Analysis
Essa parte me chamou atenção porque prazer e poder estão longe de ser problemas modernos. Muito antes de existirem seguidores, likes ou qualquer outra forma de medir status numa tela/ecrã, já havia pessoas tentando perceber se fama, riqueza e prazer eram suficientes para preencher uma vida.
Marco Aurélio é um caso curioso. Ele foi imperador de Roma, portanto ocupou uma posição de poder e reconhecimento que dificilmente algum de nós vai experimentar. Mesmo assim, em Meditações, encontramos repetidamente alguém refletindo sobre reputação, morte, reconhecimento e a importância exagerada que damos à opinião dos outros. O mais interessante é que Meditações parece ter sido essencialmente um caderno pessoal, escrito por Marco Aurélio para si próprio.
Fonte: Internet Encyclopedia of Philosophy, Marcus Aurelius
Há algo estranho nisso. Um homem que já estava no topo precisava lembrar a si mesmo que estar no topo não era assim tão importante.
Com Salomão aparece outra parte dessa questão. Na tradição bíblica, ele está associado a riqueza, poder, sabedoria e muitas mulheres. Em Eclesiastes, o narrador assume justamente a posição de alguém que experimentou grandes obras, posses e prazeres para depois perguntar o que realmente havia encontrado nisso tudo. O próprio comentário do capítulo explica que o autor assume a figura de Salomão para conduzir essa investigação sobre prazer e felicidade.
Fonte: Eclesiastes 2, USCCB
Normalmente imaginamos que estamos insatisfeitos porque ainda falta alguma coisa. Mais dinheiro, mais reconhecimento ou alguma conquista. Eclesiastes torna isso interessante porque coloca a dúvida do outro lado: e quando se consegue?
Foi aí que comecei a perceber melhor o que Frankl estava tentando separar. Prazer, poder, dinheiro e reconhecimento podem fazer parte da vida, mas não parecem garantir, por si só, que alguém saiba por que está fazendo o que faz.
Na conversa com esses meus amigos, a primeira explicação que apareceu foi bem simples. Antigamente as pessoas começavam a trabalhar cedo, tinham família mais cedo, muitas vezes viviam no campo e pareciam ter uma função muito mais definida dentro de casa e da comunidade.
Quando fui pesquisar melhor, percebi que não dava para resumir a questão ao trabalho. O emprego de hoje e o trabalho de uma sociedade rural de décadas atrás são coisas muito diferentes. Agricultura familiar, informalidade e participação dos filhos no trabalho da casa faziam parte daquela organização social.
Talvez o que tenha mudado seja menos o trabalho e mais a maneira como a vida era organizada.
Durante muito tempo, uma parte maior da população vivia em comunidades rurais e em famílias numerosas. Não é preciso encher o texto de números para perceber a dimensão da mudança: tanto Portugal quanto o Brasil passaram por uma queda muito grande no número médio de filhos por mulher nas últimas décadas.
Fontes: IBGE, fecundidade no Brasil e Pordata, fecundidade em Portugal
A família também funcionava de outra maneira. Em muitos contextos rurais, os filhos participavam cedo do trabalho familiar, e a casa era ao mesmo tempo espaço de afeto, produção e sobrevivência. Há registros históricos tanto no Brasil quanto em Portugal de crianças cuja participação no trabalho familiar dificultava ou substituía a escolarização.
Fontes: SciELO, trabalho infantil na agricultura familiar brasileira e Cambridge University Press, história do trabalho infantil em Portugal
O que me interessa nessa estrutura não é dizer que ela era melhor. É perceber que havia uma quantidade enorme de necessidades concretas em torno de cada pessoa.
A família precisava de ajuda, a terra precisava ser cuidada e outras pessoas dependiam diretamente daquilo que cada um fazia. Talvez muitos dos nossos avós nunca tenham parado para procurar um “sentido da vida”. A própria rotina já dizia, todos os dias, o que precisava ser feito.
E isso me fez pensar que uma parte do propósito talvez venha justamente daí: da sensação de que alguma coisa fora de nós depende da nossa existência.
Foi daí que surgiu uma pergunta que começou a ficar na minha cabeça: o que precisa de mim amanhã?
Hoje temos muito mais liberdade para decidir como viver. Profissão, cidade, família, religião e até as pessoas com quem convivemos deixaram de ser caminhos tão definidos quanto eram para muitas gerações anteriores.
E eu trocaria, sendo bem honesto, a minha vida pela de um trabalhador de cem anos atrás? Provavelmente não.
O que me interessa é perceber o que acontece quando muitas das obrigações que antes davam direção automática à vida deixam de existir ou perdem força. Quando família, religião, comunidade ou necessidade econômica já não decidem uma parte tão grande do caminho, sobra mais espaço para escolher. Só que escolher também exige saber o que vale a pena escolher.
É aí que entram redes sociais, jogos e inteligência artificial.
Não acho que o computador seja o problema. Grande parte da minha própria vida passa por um. É possível programar, estudar, trabalhar, criar alguma coisa ou construir uma comunidade através de uma tela/ecrã.
Até um jogo pode ter valor. Pode criar amizades, competição, habilidade e boas memórias. O problema aparece quando já não sabemos muito bem por que estamos fazendo aquilo e continuamos porque sempre existe alguma coisa seguinte para ocupar a atenção.
É muito fácil confundir objetivo com propósito.
Um jogo oferece uma próxima missão, uma rede social oferece números e o trabalho oferece uma próxima conquista. Sempre existe alguma coisa para alcançar, mas isso não significa necessariamente que sabemos por que queremos alcançá-la.
Talvez nunca tenha sido tão fácil passar um dia inteiro sem ficar realmente sem estímulo. Se aparece tédio, existe um vídeo. Se surge uma dúvida, existe uma busca ou uma inteligência artificial. Se queremos saber se alguém aprovou aquilo que fizemos, basta olhar para uma notificação.
E talvez seja justamente isso que algumas dessas ferramentas consigam fazer muito bem: impedir que sobre espaço.
Schopenhauer me parece especialmente atual nessa parte. Nos Aforismos para a Sabedoria de Vida, ele divide aquilo que determina a nossa condição entre aquilo que somos, aquilo que temos e aquilo que representamos aos olhos dos outros. Para ele, a primeira categoria tem um peso muito maior na nossa felicidade do que as restantes.
Fonte: Project Gutenberg, The Wisdom of Life, Arthur Schopenhauer
É difícil ler isso hoje sem pensar em redes sociais. Conseguimos transformar a opinião dos outros em números e acompanhar esses números todos os dias.
Também não acho que exista algum problema automático em ser streamer ou influenciador. Se alguém cria algo, entretém pessoas, ensina ou desenvolve uma comunidade, existe valor ali.
A pergunta que me interessa é outra: se ninguém estivesse olhando, aquilo ainda valeria a pena?
Se ninguém visse a fotografia da viagem, ela continuaria tendo o mesmo valor? Se ninguém soubesse quanto ganhamos, continuaríamos querendo exatamente o mesmo emprego?
Não sei responder isso por todas as pessoas, e nem tenho certeza de que sei responder completamente por mim.
Também comecei a prestar mais atenção ao tempo que passo dentro de casa. Quando fico muitos dias praticamente preso entre paredes e telas/ecrãs, noto que alguma coisa muda no meu humor. Sair para caminhar, sentir o sol ou simplesmente ficar algum tempo num espaço aberto faz diferença para mim.
Isso não é apenas uma impressão minha. Revisões reunidas pela Organização Mundial da Saúde encontram uma relação geralmente positiva entre espaços verdes e saúde mental, incluindo relaxamento psicológico e redução de stress.
Fonte: OMS, Green and blue spaces and mental health
Mas o que mais me chama atenção nem é a tentativa de provar que a natureza nos faz mais felizes do que um computador. É o tipo de atenção que cada ambiente exige. Numa caminhada sem o telemóvel na mão, durante algum tempo não existe ranking, comentário, notificação ou vídeo seguinte.
Sobra silêncio.
Talvez este seja um dos paradoxos da vida que construímos. Passamos muito tempo tentando reduzir algumas das dificuldades que tornavam a existência pesada, e conseguimos. Melhoramos a medicina, ampliamos a educação, automatizamos trabalho e criamos tecnologias que poupam esforço.
Só que, ao retirar algumas das necessidades que davam direção automática à vida, não recebemos outra direção no lugar.
Talvez seja esse o ponto que eu não conseguia formular naquela conversa com meus amigos. Não acho mais que as pessoas antigamente tinham propósito simplesmente porque trabalhavam mais cedo.
Acho que talvez elas apenas tivessem menos oportunidades de viver sem que alguma coisa dependesse delas.
Hoje podemos preencher quase todo o nosso tempo sem resolver essa questão. Podemos trabalhar, consumir, assistir, jogar, publicar e perseguir objetivos durante anos sem necessariamente decidir o que realmente importa.
Não acho que exista uma resposta única. Para alguém, pode ser criar filhos. Para outro, construir alguma coisa, cuidar de alguém, estudar, ensinar ou dedicar a vida a um trabalho que considere importante.
Frankl também não oferece uma lista pronta de sentidos que deveriam servir para todo mundo. Na logoterapia, o sentido está ligado à pessoa e à situação concreta, e deve ser descoberto, não simplesmente entregue por alguém de fora.
Talvez a pergunta inicial estivesse errada. Talvez a nossa geração não tenha simplesmente “perdido o propósito”.
O que me parece mais difícil de ignorar é outra coisa: nunca tivemos tantas maneiras de ocupar o tempo enquanto evitamos decidir o que queremos fazer com ele.
E, quando amanhã chegar, continuo achando que vale perguntar: o que precisa de mim?